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OCI no SUS: 1,3 milhão de ofertas de cuidados integrados e os desafios para reduzir as filas

5 de out.
6 min de leitura

As filas para consultas, exames e procedimentos especializados estão entre os principais desafios da gestão da saúde pública. Para enfrentar esse cenário, o Sistema Único de Saúde (SUS) vem adotando estratégias que buscam não apenas ampliar a oferta de atendimentos, mas também reorganizar a forma como o paciente percorre os diferentes pontos da rede.


OCI no SUS: 1,3 milhão de ofertas de cuidados integrados e os desafios para reduzir as filas

Entre essas estratégias estão as Ofertas de Cuidados Integrados (OCIs), modelo que reúne, de acordo com a necessidade de cada paciente, consulta com especialista, exames, diagnóstico e outras ações de cuidado em um mesmo fluxo assistencial.


O modelo ganhou escala nos últimos meses. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em setembro de 2026, o SUS realizou 1.318.617 Ofertas de Cuidados Integrados entre janeiro e agosto de 2026. O número representa um crescimento de 54% em relação a todas as OCIs realizadas ao longo de 2025, quando foram registradas 857.740 ofertas. Desde o início do modelo, em janeiro de 2025, a projeção do Ministério é alcançar aproximadamente 3,1 milhões de OCIs realizadas.


O crescimento chama atenção não apenas pelo volume de atendimentos, mas pela mudança na lógica de organização do cuidado. Em vez de considerar consulta, exame e procedimento como etapas completamente separadas, a proposta é estruturar um percurso assistencial mais integrado, reduzindo a necessidade de o paciente circular repetidamente por diferentes serviços.


O que são as Ofertas de Cuidados Integrados?

As OCIs foram desenvolvidas como uma ferramenta para ampliar e qualificar o acesso à atenção especializada no SUS. Na prática, elas reúnem um conjunto de procedimentos, avaliação especializada e tecnologias de cuidado necessários para concluir uma determinada etapa da linha de cuidado, estabelecer um diagnóstico ou definir uma conduta terapêutica.


O encaminhamento pode partir das equipes da Atenção Primária à Saúde, que desempenham papel fundamental na coordenação do cuidado e na identificação das necessidades dos usuários. A proposta é fazer com que o paciente avance dentro da rede a partir de uma necessidade assistencial definida, e não simplesmente de procedimentos isolados.


Essa diferença é importante. Quando uma pessoa precisa passar por uma consulta especializada, realizar exames e retornar posteriormente para avaliação dos resultados, cada etapa pode representar uma nova espera. Se esses procedimentos são organizados dentro de um mesmo percurso, existe a possibilidade de reduzir intervalos desnecessários entre as etapas e tornar o cuidado mais coordenado.


O crescimento de 54% significa que as filas diminuíram?

O aumento no número de OCIs realizadas demonstra uma expansão importante do modelo, mas o indicador, sozinho, não permite afirmar quanto as filas foram reduzidas em todo o país.

Essa é uma distinção importante para qualquer análise de indicadores de saúde. Produção assistencial e redução de tempo de espera são indicadores relacionados, mas não são a mesma coisa.


O número de procedimentos realizados mostra quanto foi produzido. Já a avaliação das filas exige observar outras informações, como tempo médio de espera, quantidade de pacientes aguardando atendimento, demanda reprimida, distribuição regional da oferta, taxa de absenteísmo, tempo entre consulta e exame e continuidade do tratamento.


Por isso, o crescimento das OCIs deve ser interpretado como parte de uma estratégia mais ampla de enfrentamento das filas. O resultado final depende também da capacidade de cada rede de organizar a demanda, regular os encaminhamentos e acompanhar o paciente ao longo do percurso assistencial.


Por que integrar consulta, exames e procedimentos pode fazer diferença?

Um dos problemas enfrentados na atenção especializada é a fragmentação do cuidado. O paciente pode conseguir uma consulta, mas precisar aguardar semanas ou meses para realizar o exame solicitado. Depois, pode precisar entrar novamente em uma fila para retornar ao especialista e apresentar os resultados.


Esse processo pode prolongar o tempo necessário para chegar ao diagnóstico ou iniciar o tratamento.


As OCIs procuram enfrentar justamente essa fragmentação. Ao reunir diferentes ações necessárias para determinada etapa do cuidado, o modelo busca diminuir o intervalo entre elas e evitar que o paciente tenha de organizar sozinho uma sequência de atendimentos que deveria estar coordenada pela própria rede.


A lógica é especialmente relevante para condições que dependem de investigação diagnóstica e acompanhamento especializado. O objetivo não é simplesmente aumentar o número de consultas ou exames, mas organizar esses procedimentos em torno de uma necessidade de saúde.


A importância da regulação na organização das filas

A existência de uma oferta integrada não elimina a necessidade de uma boa regulação. Pelo contrário: quanto mais estruturada for a oferta, maior é a importância de definir critérios claros para encaminhamento, priorização e acompanhamento dos pacientes.


A regulação permite organizar o acesso aos serviços especializados de acordo com critérios assistenciais e com a capacidade disponível na rede. Também contribui para evitar encaminhamentos inadequados, duplicidades e ocupação de vagas que poderiam ser destinadas a pacientes com maior necessidade.


Nesse contexto, a gestão das filas deixa de ser apenas uma tarefa operacional. Ela passa a envolver análise de demanda, capacidade instalada, perfil dos pacientes, prioridades clínicas e disponibilidade de profissionais e serviços.


A própria documentação do Ministério da Saúde sobre as OCIs destaca a relação do modelo com a organização da regulação, o compartilhamento de informações entre serviços, a gestão das filas e o matriciamento da rede.


Mais produção precisa vir acompanhada de acompanhamento dos resultados

O crescimento da produção é um dado importante, mas gestores precisam ir além da quantidade de atendimentos realizados para compreender se uma estratégia está produzindo o efeito esperado.


Algumas perguntas ajudam nessa análise:

Quanto tempo o paciente esperou até conseguir atendimento?

Quanto tempo levou entre a consulta e a realização dos exames?

O paciente conseguiu concluir a etapa do cuidado?

Quantos pacientes permanecem aguardando atendimento?

Quais especialidades concentram as maiores filas?

Onde estão os maiores gargalos da rede?

A oferta está distribuída de acordo com a demanda de cada região?


Essas informações permitem transformar números de produção em indicadores de gestão.

Em vez de observar apenas quantos atendimentos foram realizados, torna-se possível compreender como os pacientes estão percorrendo a rede e onde ainda existem obstáculos.


Essa perspectiva é fundamental porque uma rede pode aumentar sua produção e, ainda assim, manter determinados gargalos. Da mesma forma, uma redução na fila de determinada especialidade pode estar relacionada a mudanças na demanda, na capacidade instalada ou nos critérios de regulação.


Por isso, acompanhar diferentes indicadores de forma integrada é essencial para interpretar corretamente os resultados.

Um exemplo recente: o cuidado da doença renal crônica

A expansão das OCIs também começa a alcançar linhas de cuidado específicas.

Em 17 de setembro de 2026, o Ministério da Saúde anunciou novas Ofertas de Cuidados Integrados voltadas à assistência de pessoas com doença renal crônica. As novas ofertas reúnem consultas, exames laboratoriais e de imagem, acompanhamento multiprofissional e outros procedimentos de acordo com o estágio da doença e as necessidades do paciente.

Segundo o Ministério, a proposta busca reduzir o intervalo entre diferentes etapas da assistência, garantir acompanhamento contínuo e preparar adequadamente os pacientes que possam necessitar de terapia renal substitutiva. Em um dos exemplos apresentados, o conjunto de cuidados destinado à preparação para hemodiálise passou de R$ 940,22 para R$ 3.000,63.


O exemplo mostra como o conceito de cuidado integrado pode ser aplicado a diferentes linhas assistenciais. Em vez de financiar e organizar cada procedimento de maneira isolada, a lógica passa a considerar o conjunto de necessidades relacionadas a uma determinada etapa do cuidado.


O desafio agora é transformar escala em resolutividade

Os números mais recentes mostram que as Ofertas de Cuidados Integrados estão ganhando espaço dentro do SUS. As mais de 1,3 milhão de OCIs realizadas até agosto de 2026 representam um crescimento expressivo em relação ao volume registrado durante todo o ano anterior.


O próximo desafio é compreender o impacto desse crescimento sobre a experiência do paciente e sobre o funcionamento das redes de saúde.

Reduzir filas não depende exclusivamente de realizar mais consultas, exames ou procedimentos. É necessário entender a demanda, organizar os fluxos, regular o acesso, integrar informações e acompanhar o paciente durante todo o percurso.

Nesse sentido, as OCIs representam uma mudança importante de perspectiva: o foco deixa de estar apenas no procedimento individual e passa a considerar uma etapa do cuidado como um conjunto.


Para gestores públicos, isso significa também ampliar a capacidade de acompanhar indicadores e identificar onde a rede está funcionando bem e onde ainda existem gargalos.

A tecnologia pode contribuir nesse processo ao reunir informações de diferentes pontos da rede e permitir uma visão mais ampla da demanda, da produção e dos fluxos assistenciais. Mas, acima de tudo, é a qualidade da organização do cuidado que determina se o aumento da oferta será convertido em maior acesso e resolutividade para a população.


As Ofertas de Cuidados Integrados mostram que enfrentar as filas do SUS envolve mais do que aumentar a quantidade de procedimentos. Envolve organizar melhor o caminho que o paciente percorre dentro da rede.


E acompanhar esse caminho, com indicadores confiáveis e informações integradas, é parte essencial para transformar produção em cuidado efetivo.


Fonte: Ministério da Saúde.

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